Mathias Haas

Mathias Haas chegou ao Brasil no começo do século XX. Ele partiu junto com seus pais, Anton e Monika, e os irmãos vindos de Baden-Württemberg para a província de Santa Catarina em 19 de fevereiro de 1904, desembarcando em terras brasileiras no auge do verão. Mathias, nascido em 1887, em Oberweier bei Rastatt, na Alemanha, teve uma vida modesta em uma pequena vila onde, em fins do século XIX, praticamente todos os moradores eram arrendatários de terra que passavam por dificuldades, pois não encontravam mais solo disponível para trabalhar. A condição financeira da família, até seus seis anos de idade, era considerada boa, mas, por conta de especulações e negócios malsucedidos, seus pais perderam a casa e se mudaram para Karlsruhe, onde o pai foi escultor até 1895.

Ele frequentou a escola elementar em Strassburg e se formou em 18 de março de 1902, sendo um apaixonado por música, mas nunca pôde ter um instrumento nesta época. Quando jovem, frequentou a escola de formação profissional e estagiou como aprendiz de escultor na empresa Polenz & Bauer, onde aprendeu parte de seu ofício de canteiro.

Contudo, sem encontrar boas condições de trabalho e diante das dificuldades pelas quais passava o velho continente, a família Haas partiu para o Brasil nos primeiros anos do século XX. Depois de uma viagem que durou semanas chegaram a Nova Bremen, atual Ibirama. No meio da floresta, deram início à instalação da colônia que contava com alguns poucos moradores. Inicialmente, o pai e os irmãos de Mathias cuidavam da roça, enquanto ele e o irmão mais velho, Josef, trabalhavam na construção de estradas e faziam serviços de frete.

Passados alguns anos, Anton, além de trabalhar na colônia como agricultor, começou a fornecer para Blumenau e região, pedras de amolar e túmulos, sendo auxiliado por Mathias. Anton aproveitou a presença do arenito em sua propriedade e, por volta de 1907, abriu sua oficina de lápides em Ibirama.

Além da disponibilidade do material, aproveitaram o conhecimento na cantaria, adquirido na pequena vila de nome Oberweier, perto de Rastatt na região da Floresta Negra, onde eles haviam trabalhado em uma pedreira na construção de muralhas, prédios e igrejas. Exercendo a função de canteiros ou escultores, eles tinham que esculpir e dar forma a diferentes materiais com o auxílio de ferramentas. Contudo, somente no Brasil se dedicaram, de forma especial, à arquitetura funerária atendendo uma demanda da região, carente de profissionais para a fabricação desses produtos. A produção de jazigos, nestes primeiros momentos, compreendia todas as suas partes incluindo os ornamentos, o que se mostrou bastante promissora considerando a procura e a matéria prima disponível.

Apesar dos bons resultados conquistados com a instalação de sua promissora oficina, Anton, que sempre sonhara em ir para o Canadá ou Estados Unidos, partiu em 1911 para terras norte americanas levando sua família. Ficaram, em Nova Bremen, apenas seu filho Josef e Mathias, decidindo o último a tocar a pequena oficina. Assim os Haas iniciavam, no Brasil, o seu trabalho no ramo funerário. A manufatura tumular foi intensificada, porém não era a principal e única ocupação de Mathias, que se dividia entre a agricultura e a produção de leite. Ele desenvolvia as outras atividades para o sustento da família que constituiu com Rosa Johanna Reichmuth em 1911, também imigrante alemã, companheira de muitos anos e mãe de seus 10 filhos.

Oficialmente a marmoraria iniciou em 1918, na localidade de Nova Bremen, hoje Ibirama. A produção, primeiramente, baseava-se em monumentos em arenito com detalhes artísticos, produzido em Ibirama em sua pequena marmoraria e depois trazido para Blumenau que na época era o centro mais dinâmico da região. Com o passar dos anos, Mathias começou a planejar sua vinda para Blumenau e para transferir seu negócio, Mathias deu início a construção de uma sede em 1921. Quatro anos depois, muda-se para Blumenau com os dois filhos mais velhos, Elza e Guido. Juntamente com eles, deu iniciou aos seus trabalhos na Rua São Paulo, em Blumenau, enquanto seguia a construção de sede definitiva.

Em 1929, acabada a construção, a família e a Marmoraria Haas passaram a ocupar o belo prédio em alvenaria, ainda hoje existente, com oficina no térreo e duas moradias no primeiro andar. Mathias dedicou a conquista desta nova sede ao apoio da família e destacou em seu diário que “sem a ajuda de esposa e filhos essa conquista teria sido impossível”.

A Haas trabalhava em conjunto com outras grandes marmorarias e produzia artefatos para residências e construção civil. Ela fabricava escadas, revestimento de pisos e de banheiros, artefatos para cozinhas, além de tampos de mesas, adereços para jardins e mosaicos; além de realizarem trabalhos de revestimento externo de prédios, tendo atuado em vários municípios catarinenses. A marmoraria funcionava como fábrica e loja ao mesmo tempo e possuía as peças prontas em mostruário, para pronta entrega, que ficavam dispostas na varanda da marmoraria ou no pátio. Com a ampliação do negócio, a marmoraria passou a contar com a ajuda de maquinários.

Em 1937, Mathias comemorou seus 50 anos e iniciou seu livro de memórias intitulado “Livro de Memórias e Trajetória da Marmoraria Haas. Lembrança do passado e do presente, Alemanha / Blumenau, Brasil. Crônica familiar”. É desse livro que foram retiradas muitas das passagens aqui relatadas, juntamente com os depoimentos do neto Rolf e do bisneto Ronald.

Em 1947, Mathias transfere oficialmente a administração da marmoraria para seu filho, Guido, que já trabalhava com ele desde os primeiros anos de negócio. Dois anos antes, a Haas havia começado a executar a lustração de granitos, uma novidade introduzida em Santa Catarina e no sul do Brasil pela Marmoraria Haas. Guido Haas deu início a lustração de pedras e também a confecção em pedras maciças de granito trabalhadas na cantaria e depois, lustradas. Com Guido, a empresa adequa-se a um mercado onde há menos espaço para grandes obras e ornamentos. Começa, então, a era do granito e com ele os jazigos adquirem formas mais retas e perdem boa parte de seus grandes adornos e detalhes decorativos.

Ao longo das últimas décadas do século XX, a marmoraria Haas teve que modificar seu foco e, com Rolf, o neto de Mathias, a empresa partiu para o ramo das funerárias deixando de produzir arquitetura cemiterial e civil no final da década de 1990. Rolf arrendou na década de 1970 a funerária Lubow e com ela inicia uma nova etapa para a empresa dinamizando a venda com produtos como caixões e cuidados com o corpo morto. Ele também construiu uma capela velatória na década de 1980, empreendendo importantes mudanças nos produtos oferecidos pela Haas.

A Haas mantém o seu caráter de empresa familiar. Se contarmos com Anton foram cinco gerações dedicadas ao trabalho com a morte e, pelo menos, quatro gerações estiveram envolvidas diretamente na ocupação com a cantaria e marmoraria, sem contar a continuidade no ramo funerário.

 

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